A discussão sobre o controle e a rastreabilidade do ouro no Brasil voltou ao centro do debate com força, impulsionada pelo avanço de propostas legislativas e pela pressão por maior transparência na cadeia mineral. No papel, o objetivo é legítimo: combater a ilegalidade e garantir a origem do metal. Na prática, o que está sendo desenhado ainda está distante da realidade da Amazônia — especialmente do Tapajós, onde a mineração de pequena escala não é exceção, é estrutura econômica.

Quem formula política pública em Brasília muitas vezes parte de uma premissa equivocada: tratar o garimpo como um problema isolado a ser contido. No território, a lógica é outra. A mineração de pequena escala sustenta famílias, movimenta economias locais e organiza dinâmicas sociais inteiras. Ignorar isso não resolve o problema. Ao contrário, aprofunda.

O erro de formular a partir do fim da cadeia

O erro central está em tentar resolver uma distorção estrutural apenas pelo controle da ponta final da cadeia. O modelo regulatório atual — e as propostas que vêm sendo discutidas — continuam concentrando esforços na comercialização, sem enfrentar o verdadeiro gargalo: o acesso à legalidade na origem.

Hoje, o pequeno minerador opera em um ambiente de insegurança jurídica, burocracia excessiva e ausência de política pública funcional. O resultado é previsível: parte da produção é empurrada para a informalidade. Isso não é uma escolha ideológica. É consequência direta de um sistema que não oferece caminho viável para quem quer operar dentro da lei.

A experiência prática no território demonstra que a própria estrutura regulatória brasileira, ao restringir a comercialização e limitar alternativas para os produtores, contribui para o deslocamento de parte da cadeia produtiva para a ilegalidade. Ou seja, o problema não nasce no território — ele é, em grande medida, produzido pelo desenho institucional.

O garimpo não desaparece pela negação

Ao mesmo tempo, há um componente histórico que não pode ser ignorado. O garimpo teve papel central na ocupação e na formação econômica da Amazônia. Não se trata de narrativa romantizada, mas de um fato estrutural: a mineração de ouro contribuiu para a consolidação de municípios, a dinamização de regiões isoladas e a organização do espaço territorial.

Mesmo com a expansão da mineração industrial, o garimpo não desapareceu. Ele se transformou, se adaptou e continua sendo uma realidade concreta. A tentativa de apagá-lo do debate ou tratá-lo exclusivamente como atividade ilegal não resolve o problema. Apenas o desloca.

O que está em jogo agora é a forma como o Estado escolhe lidar com essa realidade. Um modelo baseado exclusivamente em rastreabilidade, sem enfrentar a base produtiva, tende a falhar. E pior: pode agravar o cenário.

Quando se aumenta o custo de entrada no mercado formal, sem garantir acesso à regularização, o efeito não é mais controle. É exclusão. E exclusão, nesse contexto, significa expansão da ilegalidade.

Controle sem inclusão não funciona. Fiscalização sem alternativa econômica não resolve. Tecnologia sem governança não entrega resultado.

O cooperativismo mineral como eixo estratégico

É nesse ponto que o cooperativismo mineral precisa ser compreendido não como um detalhe, mas como eixo estratégico da reorganização do setor.

Organizar a atividade por meio de cooperativas significa criar escala, padronizar práticas, facilitar a fiscalização e estabelecer mecanismos reais de rastreabilidade. Significa transformar uma atividade dispersa em um sistema estruturado, com capacidade de diálogo institucional.

A rastreabilidade eficaz não começa na venda. Começa na organização da produção.

Quando o pequeno minerador está inserido em uma estrutura cooperativa, é possível implementar controle de origem, adotar boas práticas ambientais, estruturar processos de compliance e integrar dados desde a extração até a comercialização. Isso é rastreabilidade real — não apenas declaratória.

O que precisa mudar na abordagem

Mas isso exige uma mudança de abordagem.

Em vez de centralizar soluções e aumentar camadas de controle burocrático, é necessário fortalecer quem está no território. Isso passa por garantir acesso a títulos minerários, simplificar processos de licenciamento, estruturar assistência técnica e reconhecer o cooperativismo como instrumento de política pública.

Não se trata de flexibilizar regras. Trata-se de torná-las aplicáveis.

A ausência do Estado na ponta produtiva é um dos principais fatores que alimentam a desorganização do setor. Onde não há presença institucional efetiva, a informalidade ocupa espaço. E onde a informalidade cresce, a ilegalidade se mistura.

O enfrentamento desse cenário exige mais do que fiscalização. Exige construção de modelo.

Os cinco pilares de uma política mineral para o pequeno produtor

A FECOGAP tem sustentado, de forma consistente, que a reorganização da mineração de pequena escala passa por cinco pilares. Não como discurso, mas como agenda concreta:

Essa combinação é o que permite sair do ciclo de repressão e ilegalidade e construir um ambiente produtivo estável, rastreável e economicamente viável.

A oportunidade em disputa

O Brasil tem uma oportunidade real de corrigir o rumo da política mineral para o pequeno produtor. Mas isso exige reconhecer que o problema não está apenas no controle do ouro — está na forma como a atividade é tratada.

Se a resposta continuar sendo mais burocracia, mais custo e mais restrição, o resultado será o mesmo: afastar quem tenta operar dentro da lei e fortalecer quem já está fora dela.

É preciso virar a chave.

Rastreabilidade é necessária. Mas, sem inclusão produtiva, sem acesso à legalidade e sem organização da base, ela não resolve.

A Amazônia não precisa de mais um modelo que funcione no papel e fracasse no território. Precisa de um modelo que reconheça a realidade, organize a atividade e gere resultado. É exatamente isso que está em disputa.
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